Tem uns dias que você não deve sair de casa. Eu sei que isso acontece com todo mundo. Eu sei que inclusive esta é uma das coisas maravilhosas da vida, que nos fazem sair da rotina. Eu só queria saber porque isso acontece comigo com tanta freqüência. Sinceramente.
A noite de terça já me dava uma idéia do que ia acontecer. Liguei para o Personal Banking da Caixa Econômica para verificar se o Aru tinha depositado a pensão da Jade. Tudo certo, exceto o valor. A múmia mandou o dobro. Estava errado, claro. Aru é bacana mas não é bobo. De modos que ele me ligou um pouco mais tarde para passar o número da conta dele para que eu devolvesse a grana.
Acordei tri-atrasada, até mesmo porque estava um frio inacreditável, mas maravilhoso para dormir. Cheguei no trabalho quase às nove da manhã. Encontrei a sala deserta e fui tomar um café. A telefonista me perguntou porque estava "matando" a reunião com o chefe. Resolvi nem aparecer lá, para não levar um esporro em público. Passei a manhã toda bestando, no MSN com Dayanne, Danusa Ferry e Elaine, e acabei levando o meu esporro por telefone mesmo, porque o chefe não ia aguentar até a tarde.
Fui almoçar, mas antes tentei depositar o dinheiro do Aru. Claro que não fui feliz, ele me deu o número da conta errado. Gastei meus últimos centavos em crédito ligando para o celular paulista dele, tentando corrigir o número, mas ele não me ouvia. Evidentemente, ele vai me ligar de volta, eu pensei, tola que sou. Ligou sim. A cobrar. Às três da tarde. Do celular dele para o meu. Nesta hora, estava no telefone com um ex-namorado da minha irmã mais velha, me contando que o irmão dele, que por acaso foi meu namorado, morreu num acidente de carro. Desta ligação, fui direto falar com o chefe antes que ele me batesse, e da sala dele saí já de noite, apenas uma hora depois do meu horário. Ele disse que era para pagar a hora que eu matei de manhã...
Cheguei na minha sala, encontrei Marli, minha amiga carente, me lembrando que ontem era aniversário de Sônia Maria, outra amiga carente. Como não tinha ligado ainda para ela, e Marli iria vê-la na saída do trabalho, resolvi ir junto. Liguei para Jade, mandei-a para a casa da Valéria. Saindo do trabalho de Sônia, eu iria para o mercado, até mesmo porque minha geladeira parecia um côco, só a casca e água dentro. Sônia torceu o pé no trajeto do estacionamento, e Marli achou melhor levá-la em casa, me prometendo que iria me levar ao mercado caso fizesse companhia a ambas. Ah, etinha que passar no banco para fazer a transferência do dinheiro para o Aru, desta vez para a conta certa. Vocês devem estar se perguntando porque não fiz a transferência pela internet, mas a minha senha está queimada, óbvio. E para reativá-la, só indo na agência. Eu moro no Portão, trabalho no Tarumã e a agência é no São Lourenço. Inviável. Aos brasilienses: é como se eu morasse na Asa Norte, trabalhasse em Taguatinga e a agência, em Sobradinho. Aos cariocas: moro no Méier, trabalho no Flamengo, e a agência é em Jacarepaguá. Não rola.
Levamos Sônia e tive que descer do carro, uma vez que Madalena, a irmã dela estava lá, e se ela soubesse que lá estive não falei com ela, meu nome estaria na boca do sapo hoje cedo. Entrei, tomei um café horrível e saí correndo. Na porta da casa, percebemos que o pneu do carro da Marli estava furado e descobri que ela jamais tinha trocado um pneu na vida. Sobrou para a Rica, que tem a feia mania de ser mulé-macho. Não vou nem contar que ela não tinha macaco e eu tive que pedir na oficina do fim da rua (que aliás, é quase em São Paulo, Estrada da Ribeira adentro. Perto da Casa da Empada) e que o mecânico ficou assistindo à troca de pneu. Vocês não iam acreditar mesmo. Tampouco vou contar que Marli se perdeu na volta, já é muito para a cara de vocês.
Fui ao mercado. Como todas as pessoas da cidade, esquecendo que era jogo do Atlético Paranaense. Mercado cheio, caixa trainée, perdida, perdida. E eu já estava rindo, não adiantava nada chorar, mesmo com a Marli choramingando as agruras da vida dela o tempo todo. Cheguei em casa. Eu disse casa? Como sou simples, aquilo parecia um campo de batalha, colchão jogado no chão da sala, toda a louça da casa suja na pia, pratos e copos e revistas e roupas, tudo jogado pela casa. Guardei a compra de geladeira e dei uma de Scarlet O'Hara, em "E o vento levou": amanhã eu penso nisso.
Fui para a casa da Val, ver o fim do jogo e tomar um vinho, porque ninguém é de ferro. Só esqueci do estômago vazio, e a minha úlcera não gostou nada disso. Passei a noite vomitando, para encerrar o dia com chave de ouro.
Quero crer que isso tudo faz parte de um plano divino para deixar-me mais forte. Só não consigo entender o porquê desse escândalo. Me dá até medo, pois posso começar a prever o que virá pela frente. DEUZULIVRE!
Iasmin